24 Setembro 2021

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EU, VULCÃO DO FOGO (IV)

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Vos saúdo! Que os deuses do Olimpo, aliás do Platô, sejam convosco! E que a deusa Electra não vos falte como vos tem faltado chuva, para que haja luz nesta terra abençoada de medalhas e cidades! Prometi que voltava, e aqui estou! Andei indisponível e faltou-me vagar para voltar mais cedo, nhos ta disculpam. Este devia ser o último episódio da história que eu tinha para vos contar antes de vos deixar em paz. Mas os ventos mudaram de feição, por isso fica para outro dia o que eu tinha escrito para vos contar. Hoje falarei de coisas que aconteceram na vossa barba-cara, por isso não esperem de mim nenhuma revelação, a não ser o meu assombro pelo que tenho visto nestas ilhas de medalhas e cidades, heróis sem glória, combatentes sem combate e generais sem soldados. Meu último aviso, com lavas e magmas, não foi ouvido! Eu, Vulcão do Fogo, vos pergunto, ó degredados filhos de Eva: que é feito do Homem Novo que devia nascer no chão destas ilhas de rendimento médio que vindes construindo pedra a pedra, de sol a sol, com o suor do vosso rosto? E a tão propalada justiça por que lutastes, quem vos disse que era possível numa democracia de “melhores filhos” e “filhos de fora”, de um lado os escolhidos, do outro os deserdados da República?! Eu, Vulcão do Fogo, vos digo que homem novo não tem que pensar como todos os homens nem adorar os mesmos deuses do Olimpo ou do Platô; não milita por interesse e não discrimina os seus semelhantes por suas ideias e convicções (haja memória dos caboverdianos vossos patrícios, encarcerados nas masmorras do Tarrafal enquanto todos gritavam “Viva a unidade Guiné-Cabo Verde”!). Homem novo, para singrar na vida, não tem que ser do partido que mais rende ou filho de pai influente, e não terá que se bater por uma reforma depois de bons e leais serviços à Nação! Homem novo, é muito simples: igualdade de oportunidades e pleno usufruto dos seus direitos conforme o seu merecimento. Eu próprio, Vulcão do Fogo, mais conhecido por Burkan, vos digo que também sou injustiçado! Não vejais em mim apenas erupções de magma e mágoas, esquecendo que também sou água e terra fértil de café e boas vinhas! O mundo pensa, só porque nos mapas está escrito, que a África Ocidental tem por tecto o Monte Nimba. Engano: eu, Vulcão do Fogo, elevo-me acima do Monte Nimba e de todas as montanhas do Futa-Djalon! Sou o ponto culminante de toda a África do Oeste... em pleno Atlântico. Do alto dos meus 2.829 metros contemplo o oceano a perder de vista, quanto mais para não ver e ouvir o que se passa nestas hespérides ilhas! Eu já tinha avisado, e em verdade vos digo, o voto das urnas não é um “sésamo” para inconfessas ambições pessoais, e a política não deve cegar o vosso discernimento! Por ganância adorais bezerros de oiro e desprezais o homem na sua essência e seus valores intrínsecos; vossas fidelidades de clã prevalecem sobre os valores fundadores da República. Quantos de vós não deveríeis calar-vos por falta de verbo ou mandato moral, e encontrais alento na vanglória de mandar! Porque sabeis que o Poder dá voz e mandato a quem os não tem, de tal modo que o mais insignificante de entre vós é por vezes quem mais ordena e dá nas vistas! Com títulos e privilégios há-de o fanático desconfiar daquele que lhe opõe opinião e convicção próprias; o invejoso há-de afastar aquele que lhe faz sombra; há-de o preguiçoso perseguir aquele que se destaca pelo seu trabalho, privando-o dos seus direitos mais legítimos. Achais justo, isto? Nos últimos dias, chegou aos meus ouvidos o clamor do Povo, desviando a minha atenção para lá desta pacata ilha de Djarfogo que foi berço de Nhô Pedro Cardoso, o anticonformista. E vi o Povo sair à rua para dizer o seu descontentamento contra os seus representantes por terem votado em conclave parlamentar um controverso Estatuto de Titulares de Cargos Políticos, outorgando aos futuros Eleitos e aos supremos nomeados da Nação, aumentos salariais exorbitantes e privilégios de excepção. Nem o mais lúcido dos Eleitos votou contra, e eram eles sessenta e nove, faltando três! Em verdade vos digo, nunca tal acontecera nestas ilhas desde o dia em que eu, Vulcão do Fogo, vi chegar os vossos ancestrais que aprenderam com as cabras a comer pedra para não perecerem! Com eles vivi o drama das secas e das fomes, uns arrastando grilhetas, outros seus andrajos pelas ruas da amargura em anos de carestia. E vi-os “cambando” no horizonte a caminho da terra-longe para não morrerem à míngua. Vi caboverdianos pegando em armas pela liberdade, outros dando no duro para construir estas terras no meio do mar. Mas isto que agora vedes, se alguém viu no passado, não fui eu, Vulcão do Fogo – e bem sabeis que estou aqui desde o princípio dos tempos! “65 por cento, ó senhores?!” - de todas as ilhas ecoou em uníssono esta pergunta, grandes e pequenos perplexos e indignados com tamanho aumento e tantas regalias em tempo de vacas magras. Mas parecendo o Povo acomodado, por inércia, à injustiça crónica em que vivia, persuadiam-se os Eleitos que rapidamente ele haveria de esquecer. Engano: para surpresa geral, viram desfilar na rua os descontentes de todos os partidos e os sem-partido, ricos e pobres e remediados, pedindo ao Sumo-Sacerdote que não homologasse o malfadado Estatuto. Os espíritos exaltados mandavam bocas, com insidiosas alusões a quarenta camaradas numa legendária caverna que só mesmo um espertalhão por nome Ali Babá haveria de desvendar: a caverna de Ali Babá, camuflada na rocha para enganar os passantes, reluzia por dentro de tanto ouro e pedras preciosas que nela havia! Face à turba indignada mas ordeira e folgazã que tão injustamente os desautorizava, responderam os Eleitos com lágrimas nos olhos: - “Foleiros! Noblesse oblige, ó ingrato Povo!” Que agiam em nome da dignidade dos títulos e cargos que ostentavam, no interesse do Povo que lhes dera procuração para o representar. Aian! - volveram em uníssono os que protestavam: - “Então vamos às contas, digníssimos Eleitos: se há aumento de 65% para quem representa e não tem falta, haja um pouco para quem trabalha e não tem nada - senão retiramos a procuração que vos demos!” E diziam uns que o Povo já não queria contentar-se com migalhas, como Lázaro o mendigo. “Migalhas do pão amassado nas urnas para os que comem tudo e não deixam nada!”, clamavam os espíritos exaltados, acicatando os ânimos da multidão - “Também queremos dignidade, ora essa!” E muitos insinuavam que os deuses do Platô tinham enlouquecido por mor de cobiça e vaidade! O clamor do Povo subiu ao supremo areópago e o Sumo-Sacerdote vetou o Estatuto - cartão vermelho! Não se fala mais desse diploma de má memória, para uns uma clamorosa injustiça, para outros uma heresia na terra de Cabral e Nhô Ambrósio que foi capitão de famintos na ilha de Mari-Préta de Nho Djunga. “Mea culpa senhores políticos!”, oiço ainda reclamar os espíritos mais fogosos. Isto vi eu de meus olhos vistos, ninguém me contou! E agora que a poeira assentou, eu, Vulcão do Fogo, vos digo, DIGNOS filhos das ilhas: dai a César o que é de César e aos deuses do Platô o que é deles. Mas os deuses do Platô só existem porque neles acreditais e neles votais. Votai pois em quem é digno de falar em vosso nome, porque dignidade é condição e não consequência! Eu, Vulcão do Fogo, convosco estarei até ao final dos tempos. Às gerações vindouras direi que vi o meu Povo desfilando de mãos dadas, clamando a uma só voz pela defesa dos seus direitos. Direi aos vossos filhos e netos que vi o Povo unido em descontraída harmonia crioula, superando rivalidades partidárias. Povo cidadão e não povo militante, fazendo bloco pelo respeito da sua DIGNIDADE. E porque me foi dado ver o que vi, eu, Vulcão do Fogo, vos digo: A DATA DE 30 DE MARÇO MERECE FICAR PARA A HISTÓRIA COMO DIA NACIONAL DA CIDADANIA! Mantenhas e DIGNIDADE pa tudu nhos e nhos família na terra-longe. 17 de abril de 2015
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